| Valor
Historico Cultural do Conjunto Patrimonial Tombado
“Sertões”, “mares
extintos”, “natureza torturada”, são expressões reveladas por Euclides
da Cunha para descrever as condições geográficas de extensas áreas
do território nordestino. Ao tratar do sertão, do sertanejo e da
campanha de Canudos, sua obra “Os Sertões” afirma mais um tipo humano constituinte do povo brasileiro.
Portanto, essa terra, esse homem e esse conflito, marcos históricos
do Brasil, têm na paisagem do sertão do Vale do rio S. Francisco,
na cidade de Piranhas, na vila de Entremontes e no acervo dos bens
patrimoniais imateriais, uma expressão.
Essa expressão
objetiva-se na associação do sertão à caatinga, denominação dada
à vegetação da região, às fazendas e currais de gado, própria do
ciclo do gado do final do século XVI ao início do século XVII, ao
rio São Francisco que atravessa esse sertão possibilitando a comunicação
com o litoral, ao estabelecimento das atividades da pecuária, à
topografia em relevo como uma corda de montes rochosos ou “cânion”
nordestino e ao cangaço como reação às condições de atraso, semi-escravidão
e opressão ao homem do campo, principalmente ao bando de Lampião.
Sertão, caatinga, fazenda, pecuária, rio, “cânion” e cangaço, compõem
“uma paragem impressionadora” e uma configuração histórica singular,
constituinte da identidade nacional.
Para além das associações
possibilitadas pela natureza, pelo povoamento de terras inóspitas
e distantes do Atlântico e pela formação social, a cidade de Piranhas,
no sertão do São Francisco, está ligada, também, a fatos históricos
relativos ao desenvolvimento tecnológico.
A navegação a vapor,
iniciada em 1867, estabeleceu linha regular entre as cidades de
Penedo e Piranhas, e a estrada de ferro mudou as condições de comunicação
entre o litoral e o sertão nordestino (ver Quadro 1). São acontecimentos
modernizadores propiciados pelo desenvolvimento tecnológico, respectivo
à segunda metade do século XIX, que romperam o curso da história
do sertão alagoano.
Quanto à ferrovia,
Estevão Pinto mostra que a importância da linha Recife – São Francisco
foi de caráter nacional, pois significou a efetiva conquista dos
sertões e a ligação comercial e social das regiões do alto e baixo
São Francisco. Ao descrever a linha a partir de Piranhas até Jatobá
(atual Petrolândia), destaca que a pobreza e a escassez da população
na região não tornavam rentável o funcionamento dessa linha, justificando-se
a sua construção apenas pela expansão comercial, à medida que encurtava
distâncias. Com o funcionamento dessa linha, em 1881, Piranhas consolida
sua posição de principal entreposto comercial, ligando-se ao baixo
São Francisco e à Cachoeira de Paulo Afonso.
Assim, com a
navegação a vapor e a ferrovia, Piranhas passa por um período de
prosperidade econômica, elevando-se político-administrativamente
à condição de freguesia, em 1885, de comarca, em 1910, e de
cidade, em 1930, isto é, cumpre um ciclo urbanizador (ver quadro
1). O tempo transcorrido entre a concessão da freguesia e a elevação
à cidade já mostra que as alterações em Piranhas, como na
maioria das cidades do sertão, verificam-se num ritmo diferenciado
das localidades litorâneas nordestinas. Portanto, pode-se dizer
que, a partir de 1930, não ocorreu nenhum fato propiciador de
crescimento econômico e social. Essa apatia, porém, torna-se
estagnação com a desativação da ferrovia pela Rede Ferroviária
Federal, em 1964.
Outro fato tecnológico
promotor de alterações no território de Piranhas foi a construção
da Usina Hidrelétrica de Xingó, a partir de 1986.Para a construção
dessa Usina, foram implantados acampamentos e posteriormente edificados
os bairros de Xingó e Nossa Senhora da Saúde, alterando a organização
econômica, social e territorial de toda uma região e, especificamente,
a configuração territorial de Piranhas, passando a existirem a antiga
e a nova cidade.
Assim, esse fato
tecnológico rompe com a cadeia produtiva navegação/ferrovia/comércio,
altera a organização social à medida que introduz outros
segmentos como engenheiros e arquitetos, introduz outros elementos
construtivos e naturais no território, estabelecendo a existência
de uma cidade com dois lugares e um crescimento populacional da
ordem de 1.500%. Enfim, imprime mudanças nos modos de vida, as
quais podem ser resumidas como um surto de urbanização
modernizadora.
Os dois fatos navegação/ferrovia
e energia/usina constituem dois momentos de ruptura conduzidos por
ações modernizadoras, em contraposição ao isolamento e à estagnação
econômica. Ações ou atos que conduzem à modernização podem ser entendidos
como práticas de indivíduos ou atores sociais visando introduzir
o novo, o moderno. Segundo Le Goff, os atos de modernização podem
distinguir-se pela manutenção do antigo, pela sua destruição ou
pela conciliação do antigo com o novo. Nesta proposta de tombamento,
objetiva-se a conciliação e ela consiste em garantir a conservação
dos bens patrimoniais materiais e imateriais de uma parte do território
do sertão do Vale do rio São Francisco.
Os bens
patrimoniais imateriais superpõem-se às cadeias associativas de
fatos históricos: a da natureza e a dos ciclos urbanizadores. Esses
bens constituem expressões das tradições próprias aos tipos
humanos que desbravaram, povoaram e criaram modos singulares de
viver nos sertões do Vale do rio São Francisco. Essas tradições
culturais referem-se à toponímia, às famílias, ao folclore, às
festas religiosas e profanas, à feira, ao artesanato, à
gastronomia e ao cangaço. Todas essas referências formam, em
conjunto com a beleza da paisagem natural e construída, a memória
permanente do lugar.
A identidade do
território de Piranhas interligada à do sertão associa-se, por um
lado, à caatinga, à fazenda, à pecuária, ao rio, ao “cânion” e ao
cangaço; por outro lado, à navegação a vapor, à ferrovia, à urbanização
e à energia elétrica. Essa composição de fatos singulares, marcos
da memória de uma região, confere ao território
de Piranhas importância
nacional e seu futuro tombamento registrará o primeiro sítio histórico localizado no sertão de caatinga do Nordeste.
Quadro
1
Síntese
histórica da evolução urbana de Piranhas
Final
do século XVI/ início do século XVII – Os currais se expandem
nas margens do São Francisco, ciclo do gado.
1684
– Começo de Entremontes como sede da fazenda Barra do Rio dos
Cabaços.
Segunda
metade do século XVIII – Início do povoamento nas localidades
de Piranhas (hoje Piranhas de Baixo) e Entremontes.
1859
– Visita de Dom Pedro II.
1861
– Impulso da cultura algodoeira.
1867
– Navegação a vapor de Penedo a Piranhas.
1877
– Período da Grande Seca.
1878
– Início das obras de construção da estrada de ferro em Paulo
Afonso.
1883
– Inauguração do trecho final da estrada na Estação de Jatobá
– PE.
1885
– Criação da Freguesia de Piranhas – Lei provincial nº.
464.
1887
– Piranhas é elevada à categoria de vila – Lei no. 996.
1891
– É instituído o Foro Civil de Piranhas.
1903
– “Ciclo do Couro”.
1910
– Piranhas é termo da Comarca de Água Branca- Lei no. 603.
1913
– Inauguração da primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso,
construída por Delmiro Gouveia.
1920
– Piranhas volta a pertencer a Água Branca – Lei no. 1149.
1923
– O termo de Piranhas é anexado a Paulo Afonso – Mata Grande
– Lei no. 1001.
1929
– Piranhas é desincorporada, passando à Comarca de Pão Açúcar.
Declínio do algodão.
1930
– Piranhas é elevada à categoria de cidade.
1939
– Piranhas passa a ser denominada Marechal Floriano.
1950
– Surgimento do que viria a ser o atual povoação de Piau.
1952
– Piranhas passa à categoria de Comarca de primeira instância
.
1964
– Desativação da ferrovia “Great Western Brazil Railway”.
1974
– Conclusão da AL – 225.
1986/7
– Início do acompanhamento e das obras da Usina Hidroelétrica
de Xingó.
1994
– Início da operação do gerador 01G6 da Usina Hidroelétrica
de Xingó
1996/97
– Passagem da Gestão dos Bairros de Xingó e Nossa Senhora da Saúde
à Prefeitura de Piranhas
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