| O conjunto dos bens
patrimoniais materiais
O primeiro
tombamento tem como principal motivação o valor histórico e cultural
de uma paisagem/cenário, suporte físico da ocorrência dos fatos
históricos, que abrange a Vila de Entremontes, a Usina Hidrelétrica
de Xingó e a ocupação antiga de Piranhas.
Além da importância histórica e cultural, esse território possui
outras características que justificam seu valor paisagístico e artístico.
A
paisagem, entendida como o resultado da intervenção humana sobre
a natureza, associa as pessoas ao lugar, criando laços afetivos
a partir de sua linguagem. A construção humana está presente, mas
não se impõe à natureza. Ao contrário, insere-se, de modo complementar,
nos interstícios e nas depressões do sítio. Suas marcas arquitetônicas
nos pontos altos e nos pontos de vista detectados numa perspectiva
de longo alcance, são significativas, mas discretas.
A
paisagem histórica do Vale do São Francisco materializa uma
conjugação equilibrada de elementos naturais e elementos
culturais, onde o fato urbano não se impõe à natureza. A paisagem
exibe, com predominância, seus componentes naturais: água, rocha,
vegetação da região do sertão, morro, numa relação de
equilíbrio com os gestos humanos que testemunham a história do
lugar. .
Tombamento
2 - A
cidade histórica de Piranhas
O segundo tombamento
refere-se à cidade histórica de Piranhas, que está localizada no
sertão nordestino, em um ambiente de caatinga, no cânion do Rio
São Francisco, a dois quilômetros a jusante da barragem da Usina
Hidrelétrica de Xingó. A cidade foi construída no fundo de uma fenda
(ou pequeno vale) do cânion do rio São Francisco, quase uma grota,
encravada entre três morros, como um anfiteatro, cujo palco é o
rio, e o pano de fundo, o paredão do cânion
A cidade formou-se
tirando partido da variedade do relevo do terreno para realçar esses
elementos arquitetônicos como sinalizadores da paisagem e pontos
focais, que definem os limites visuais da cidade, tanto do ponto
de vista do exterior como do interior e, com simbolismo, conferem
monumentalidade ao fato urbano.
Apesar de ser uma
cidade relativamente nova no panorama urbano brasileiro, ela conseguiu
sintetizar o saber difuso de fazer uma cidade tradicional e transportá-lo
até o século XXI. Não é uma cidade com qualquer tipo de planejamento
'a priori´. Sua configuração atual deve-se, exclusivamente, a um
processo adaptativo e incremental de expansão e consolidação da
cidade, que perdura há mais de 150 anos.
A cidade teve origem
no antigo cais, situado na Piranhas de Velha. Antes de 1870, era
um simples aglomerado de construções muito simples e somente depois
da decisão de construir a estrada de ferro Piranhas - Paulo Afonso
é que a cidade começa a surgir.
A cidade
tem uma forma linear, sendo a rua D. Pedro II o seu eixo principal.
A partir do
encerramento das atividades da ferrovia, a cidade sofreu alguns
impactos, relativamente traumáticos, que quase romperam a sua
integridade urbanística. Também foi destruído um grande galpão
da oficina da ferrovia, para que o caminho entre as duas Piranhas
pudesse ser completamente loteado.
Grande parte dessas
intervenções pode ser desfeita, sem grandes problemas, permitindo,
assim, recuperar as esplanadas dos belvederes, que fez de Piranhas
uma cidade ímpar na história da urbanização do Brasil.
A cidade de Piranhas possui um acervo
arquitetônico de valor pela homogeneidade do casario e pela presença
de edifícios monumentais estrategicamente colocados no espaço urbano.
O casario apresenta grande homogeneidade relativamente aos tipos
de edificação, todos bastante representativos da arquitetura vernacular
brasileira.Não é uma cidade de grandes arquitetos, mas sim dos mestres-de-obras
e dos pedreiros.
Nas 301
edificações inventariadas existem edificações de estilo
vernacular (tradicional e contemporâneo), neoclássico e moderno
(vários exemplares com ornamentação art-decô). Contudo, o que se
observa é uma forte dose de ecletismo, próprio de uma cidade
edificada sem construtores eruditos.
O vernacular, de
origem colonial, é a arquitetura popular, cujo tipo foi mantido
pelos mestres construtores ao longo dos séculos. É
uma construção de porta-e-janela, meia-morada ou morada-inteira;
térrea; ocupando o lote em três de seus limites (o fundo pode ser
livre); telhado em duas águas, com inclinações para a frente e o
fundo do lote; com portas e janelas com verga reta ou em arco abatido,
no caso das mais antigas.
O vernacular contemporâneo
é uma reelaboração que não possui os detalhes do estilo original.
As fachadas têm o mesmo padrão da meia-morada ou da morada-inteira,
mas desprovidas de detalhes decorativos. O ritmo das aberturas também
pode mudar, especialmente devido ao uso de janelas e portas pré-fabricadas.
O estilo neoclássico
é o mais freqüente e é uma reelaboração dos tipos tradicionais.
A sua originalidade está na fachada composta por um corpo (quadrado
ou retangular), que é coroado por uma platibanda retangular.
O exemplar de arquitetura neoclássica mais significativo da cidade
é a estação ferroviária.
O eclético aparece
como uma sobreposição em edificações realizadas com outros estilos,
principalmente o neoclássico. Utilizam-se
vários adornos e adereços que 'quebram' a rigidez plástica do estilo
original.
O moderno aparece
em Piranhas em duas situações: 'art-decô',
que segue o tipo construtivo neoclássico e a edificação concebida
segundos princípios modernos, representando a minoria. No
primeiro caso, as edificações 'art-decô' conferem a Piranhas uma
característica peculiar, pela presença de uma grande diversidade
de soluções originais e pela harmonia plástica das fachadas. No
segundo caso, a solução arquitetônica moderna é sempre bastante
simples e de confecção modesta.
Entremontes
está no sudeste da cidade de Piranhas e às margens dos rios São
Francisco. É a estrutura urbana mais antiga desse
território. Teve origem em uma das sedes das fazendas de gado que
margeavam o São Francisco, e representa muito bem o processo de
ocupação do sertão. É composta, basicamente, de um
ancoradouro de barcos e de uma pequena estrutura urbana. Destaca-se
no território pelo seu excepcional valor paisagístico.
Entremontes foi
uma vila concebida para ser vista do leito do rio, como um cenário
de passagem para os viajantes. É uma paisagem moldada e organizada
pela arquitetura da igreja, especialmente pela vista de seu corpo
principal e pelas duas torres.
A Igreja de Nossa
Senhora da Conceição é um exemplar arquitetônico raro no sertão.
A sua escala e dimensões somente podem ser explicadas, e entendidas,
tomando-se como referência a paisagem. É uma arquitetura do território
e não do urbano. É um belo exemplo de igreja neoclássica que impressionou
o nosso segundo imperador.
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