Patrimônio Desconstruído

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O quadro de preservação do Patrimônio Cultural Pernambucano, composto por bens de natureza material e imaterial, identificado nas edificações históricas, traduz um dos retratos significativos do descaso com a memória e com a identidade do povo brasileiro.

Nos municípios do estado de Pernambuco que guardam os acervos mais importantes, inclusive na capital, não é difícil nos depararmos com edificações abandonadas, muitas em estado de arruinamento ou já caracterizadas como ruína.

A preocupação com o descaso fica ampliada diante das intervenções públicas ou privadas que são realizadas nestas edificações, às vezes bem intencionadas, mas, que diante da ausência dos devidos cuidados, vem causando perdas e danos irreversíveis a este precioso acervo. Apesar do pensamento mundial não deixar dúvidas quanto aos critérios que devem ser utilizados nas intervenções, como por exemplo, a manutenção contínua para evitar a necessidade de restaurações, o princípio de intervenção mínima e que o novo uso deve ser adaptado à edificação e não esta ao uso, é comum nos depararmos com exemplos onde tudo isto é negado, seja por falta de compromisso ou por desconhecimento.

Em grande parte das soluções que foram e ainda vêm sendo adotadas nas intervenções realizadas nas últimas décadas, as estruturas históricas das antigas edificações passam a ter um papel secundário dentro da nova concepção de uso desses prédios, sendo transformadas em meros “objetos decorativos” das estruturas contemporâneas. Portas e janelas perdem suas funções intrínsecas, paredes se transformam em elementos esculturais e plásticos e as fachadas passam a compor cenários de grandes parques temáticos urbanos. Processo de plastificação e shoppingzação desses elementos culturais.

Não se deseja, obviamente, que a cidade seja congelada, no entanto, para o processo de construção da cidadania de um povo, é imprescindível o reconhecimento do valor de cada um dos momentos que compõem a história desse povo e que a contemporaneidade e o porvir sejam processados com toda a liberdade de possibilidades, mas respeitando cada um dos momentos que contribuíram para a construção do presente.

Eduardo França
José Odilo de Caldas Brandão Filho