Ofício do Estucador

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Imagem: Igreja de Nossa Senhora da Penha, Recife/PE - século XIX

Foto: Jorge Tinoco. Edição: CECI/2007

A etimologia da palavra estuque que vem do italiano stucchi, significando relevo ornamental"”, indica, desde logo, a sua aplicação arquitetônica.

O estucador é o oficial aplica o estuque, isto é, a argamassa de revestimento a base de cal e areia, conhecida popular e genericamente como reboco. Também, refere-se ao artista que modela os ornatos artísticos aplicados ou integrados nas edificações.

O estuque é uma argamassa a base de cal, areia e, conforme o caso, gesso (este em pequena quantidade, apenas para acelerar a pega), usada para revestir as paredes internas e os forros, servindo de vedação, preenchendo os interstícios de uma armação qualquer, como por exemplo, telas de arame, sarrafos de madeira, fibras... Com essa argamassa se produzem relevos sobre a alvenaria e demais componentes arquitetônicos, auxiliados por moldes ou à mão livre. Pode de ser aplicado na parte interior ou exterior dos edifícios, sendo que neste caso, dispensa o uso do gesso. Pode receber corante e ser polido. Refere-se também aos trabalhos para pinturas afresco e aos revestimentos conhecidos como marmorino (onde se busca a imitação da pedra mármore) e escaiola, aplicados com a adição de pó de mármore. Modernamente, o termo estuque só é empregado para designar as argamassas aplicadas nas edificações do passado.

Fig. 1 Exemplo de molde para cimalha. Fonte: PINHEIRO, Thomaz Bordallo. Biblioteca de Instrução Profissional - Manual do Formador e Estucador. Livraria Bertrand, Lisboa, s/d. pág. 63.

Fig. 2 Confecção de capitel com molde. Aula de estuque curso Gestão de Restauro. Fonte: CECI – 2003.

O estuque foi utilizado desde a antiguidade clássica e foi comum na arquitetura romana. A técnica do estuque, como outras técnicas construtivas, sofreu descontinuidades em sua história, pois, sendo desconhecido da arquitetura românica e gótica, teria sido “redescoberto” pelos construtores do Renascimento.

Deve-se lembrar que os profissionais renascentistas fossem arquitetos ou artesãos, não apenas copiavam os exemplos da antiguidade clássica, mas, também os adaptavam à nova ordem econômica e social que vivenciavam. Muitas vezes, os variados detalhes construtivos com os perfis e dimensões das “ordens arquitetônicas”, insinuavam a obra do canteiro onde só existiam tijolos revestidos de estuque. Economizava-se, portanto, nos materiais e na mão de obra. Esse foi um dos segredos do famoso arquiteto renascentista Andréa Paládio! Assim, o estuque se apresenta como um simulacro para certas obras de cantaria, porém, menos oneroso em todos os sentidos.

Fig. 3 Marmorino ou finto marmo (italiano) da Basílica de N. Sra. da Penha, Recife - PE . Fonte: CECI, 2006.

Fig. 4 Basílica de N. Sra. da Penha, Recife - PE . Uma das mais belas edificações com ornamentação em estuque do Nordeste do Brasil Fonte: CECI, 2006.

Em Portugal, essa técnica foi “redescoberta” ou simplesmente incrementada depois da segunda metade do século XVIII, quando o Marquês do Pombal criou uma Aula de Estuques (1766), dirigida pelo milanês João Grossi .

No Brasil, o estuque foi largamente empregado a partir dos meados do século XIX até as primeiras décadas do século XX. A razão para tal fato é esta: O intervalo assinalado abrangeria a Arquitetura Imperial, de cunho classicista, e a Arquitetura Eclética.

Os novos preceitos que se sucederam ao período Colonial trouxeram consigo grandes transformações técnicas, tecnológicas e de mão de obra. Foi no período Imperial que surgiram as primeiras academias de ensino nos moldes europeus e onde se formou profissionais com uma visão eminentemente histórica do ofício. Ao arquiteto, cabia então dar um “estilo” ao edifício (renascentista, por exemplo) e ao estucador a aplicação dos ornatos adequados.

Em Pernambuco, tais transformações foram antecipadas por um fato curioso: como não havia mão de obra local capaz de lidar com os novos preceitos estético-arquitetônicos, o então Governador da Província, Francisco do Rego Barros, mais tarde Barão da Boa Vista, contratou na Alemanha (Hamburgo) em 1839, uma companhia de 105 operários composta de pedreiros, carpinteiros, canteiros e operários diversos. As conseqüências deste contrato são descritas pelo historiador Pereira Costa:

As pesadas cornijas vagarosamente feitas à mão, desapareceram, e deram lugar às novas, que se vulgarizaram, elegantes e rapidamente construídas a molde; e as vergas das portas e janelas dos prédios, feitas de pedra, em toda a largura da parede, deram lugar às novas que dispensavam aquele material, construídas de alvenaria, por meio de símplices (SIC), quer fossem retas ou abatidas, semicirculares ou ogivais; além de outros melhoramentos, como a ornamentação arquitetônica, as maiores dimensões às portas e janelas, encimadas por cornijas, que deram um tom agradável e belo às nossas construções; e fato digno de nota, as obras de construção tornaram-se mais baratas porque desapareceu o trabalho do canteiro de material de pedra, e pela economia de salário que adveio com o novo sistema de moldes e simplices das obras de ornamentação; e na feitura das cornijas e janelas e outros trabalhos menos complicados não só da arte de pedreiro, como também de carpintaria. A introdução do estuque é também dessa época.

Com o advento do Movimento Eclético nas primeiras décadas do século XX, o Recife completou na época o que se entendeu por “modernização”. Assim, foi em 1910 a profunda reforma do bairro do Recife com a abertura de grandes avenidas radiais e a paulatina substituição dos sobrados “magros” de fachadas lisas por edifícios repletos de adereços... De estuque.

Fig. 5 Edifício da Assembléia Legislativa de Pernambuco. Obra do arquiteto José Tibúrcio Pereira de Magalhães, 1875. Fonte: Roberto Dantas, 2005.

Fig. 6 Conjunto de edifícios ecléticos recém construídos visto da antiga Praça Rio Brancos, Recife - PE. Fonte: Catálogo impresso, sem autoria, cerca de 1930.


Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador

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