Viagem de Estudos da 7a Edição

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A viagem da 7ª edição do Curso de Gestão e Prática de Obras de Conservação e Restauro do Património Cultural, oferecido anualmente pelo CECI, teve como destino a cidade de São Luís no Maranhão.

Fig. 01 - Turma da 7a edição no Centro Histórico de São Luiz, acompanhada pelo Prof. Jorge Tinoco e o Mestre artífice Moíses Floriano. Fonte: CECI,2007.

A turma cumpriu um extenso roteiro, entre os dias 26 e 30 de Novembro de 1007, que incluiu diversas visitas a edificações em processo de intervenção de restauro, acompanhados pelos engenheiros e arquitetos responsáveis, ao longo de cinco dias de estudo.

No primeiro dia, a manhã foi destinada a chegada e alojamento dos alunos na cidade. Já no período da tarde, a turma foi recepcionada por representantes do IPHAN e da Prefeitura de São Luís, na pessoa da Secretária de Planejamento e Desenvolvimento Srª Tati Palácio. Foi feito um breve city-tour de reconhecimento pelo núcleo histórico da cidade onde os alunos receberam informações sobre a história e características da cidade. A cidade é situada entre os rios Bacanga e Anil, possuindo um centro histórico de duzentos e vinte hectares, datado do começo do século XVII. Sua principal característica ficou clara a primeira vista: malha urbana viária ortogonal, que com a variação de gabaritos, fachadas e telhados permitem a dinamicidade deste plano regular.

 

Imagens de Larissa Menezes/2007

Após a caminhada, a turma se encaminhou para a Oficina Escola de São Luís, local definido como ponto base do Curso na cidade maranhense. Lá, foi apresentada pela arquiteta Karla Cristina Nunes (também aluna desta edição) uma palestra sobre o Programa de Revitalização do Centro Histórico,  desenvolvido pela Prefeitura local, caracterizado como um conjunto de ações estratégicas para preservar o seu património material e imaterial e promover a articulação das diversas áreas envolvidas, visando a promoção do desenvolvimento sustentável da cidade.

 

Imagens de J. Tinoco/2007

O dia seguinte teve início com a visita a obra do Centro de Referência Azulejar, espaço que servirá para exposições e informações sobre a arte da confecção de azulejos, cujos sobrados em reforma são do século XIX e foram unificados totalizando uma área de 1.131.60m². A fachada principal da edificação é revestida de azulejos com estrutura gráfica policromada, onde os alunos observaram  a ausência de parte destes elementos, então retirados para execução do restauro.

 

Imagens de J. Tinoco/2007

Seguindo o roteiro programado, a turma visitou a intervenção recentemente concluída do Restaurante do SENAC, obra que fez com que o prédio sofresse diversas alterações em seu interior para se adequar ao uso solicitado. Isto alforou uma discussão sobre até que ponto uma edificação histórica permite um novo uso e as consequências de sua adaptação.

A visita seguinte foi à sede do SEBRAE, mais uma obra de requalificação onde  a turma verificou, entre outras coisas, uma das alternativas de tentativa de integração de tecnologia contemporânea (no caso, instalações de ar-condicionado) na arquitetura histórica.

 

Imagens de LarissaMenezes e J. Tinoco/2007

A parada na obra de restauro do Arquivo Público Municipal de São Luís, foi bastante válida em especial para aprendizado in loco a respeito da técnica utilizada no restauro dos azulejos. Foi também possível observar a execução de limpeza dos mesmo (no interior do edifício) e reposição de peças na fachada.

 

Imagens de Karla Nunes/2007

A última visita do dia levou o grupo ao Hotel Ribamar, uma edificação de três andares, construída em 1756 para residência da então abastada família Belfort, destacando-se como um dos primeiros edifícios deste gabarito na cidade. Já no século XIX, funcionou como redação de um jornal local. Hoje, o imóvel, que é tombado pelo IPHAN, encontra-se em avançado estado de degradação.

 

Imagens de Larissa Menezes e J.Tinoco/2007

O dia 28 foi destinado a visita da cidade de Alcântara, município do Estado do Maranhão onde os franceses se estabeleceram no início do século XVII sendo expulsos pelos portugueses. Foi durante o período colonial um importante centro agrícola e comercial. O grupo realizou de barco a travessia da baía de São Marcos que liga São Luís a Alcântara. A cidade entrou em decadência após a abolição da escravatura e, atualmente, entre as edificações existentes, surgem algumas ruínas de casas, sobrados e igrejas. O Largo da Praça da Matriz foi um dos locais visitados, formado por um conjunto de casarões, as ruínas da igreja e o velho pelourinho. A igreja do Carmo destacou-se como um dos pontos altos do passeio, foi construída entre 1660 e 1690 e possui o altar-mor em talha dourada no estilo rococó, além ricos painéis de azulejos portugueses não figurativos. Próximas ao templo, encontram-se as ruínas de dois palácios incacabados cujas construções foram iniciadas para receber o imperador D. Pedro II, visita esta nunca relizada pelo nobre. Vale ressaltar que a observação das ruínas permitiu aos alunos o estudo dos métodos construtivos utilizados na região, assim como os materiais estruturais lá utilizados. No final do dia, a turma retornou à capital maranhense.

 

Imagens de Silmara Feiber/2007

Imagens de Larissa Menezes/2007

Imagens de Silmara Feiber/2007

Continuando a viagem de estudos, o quarto dia teve início na Catedral Nossa Senhora da Vitória, ou Catedral da Sé, cujo altar-mor foi recentemente restaurado. Apesar do imóvel não possuir características para tombamento, o retábulo é considerado um dos mais expressivos do barroco brasileiro, tendo sido tombado pelo IPHAN em 1954. A peça sofreu restauro em 1996 e precisou de nova intervenção em 2006. Os alunos analisaram o método utilizado, percebendo em especial a  aplicação de folhas de ouro, técnica abordada durante as aulas presencias em Olinda.

 

Imagens de Larissa Menezes /2007

O próximo destino foi a Igreja do Desterro, então em obras. Esta é uma das mais antigas de São Luís, tendo sido erguida nos primeiros anos da fundação da cidade, no início do século XVII. Iniciou-se como uma simples capela voltada para o mar, foi reedificada em 1644 após a expulsão dos Holandeses, passou por um período de abandono chegando a desmoronar em 1832. Foi então reconstruída por um devoto, sendo entregue em 1839. Passou novamente por obras entre 1867 e 1868, quando foi erguida a torre. Durante a visita, o grupo teve uma breve explicação dos métodos e materiais utilizados na obra e pôde fazer questionamentos aos responsáveis pela sua execução.

 

Imagens de Izabella Menegazzo e J.Tinoco/2007

A próxima parada foi na Casa das Minas, o terreiro de tambor mais antigo de São Luís, fundado em 1840 por escravas africanas procedentes de Daomé, atual República do Benin. O local é tombado pelo IPHAN, sendo o terceiro terreiro de culto afro-brasileiro no seu Livro de Tombo. Após conversa com a atual dirigente da Casa, Deni Prata, os estudantes vivenciaram o conceito de patrimônio mais amplo que o físico, um patrimônio histórico-cultural-religioso. Foi permitida a circulação para visitação em determinados ambientes do imóvel que passava por reformas, visando melhor atender as necessidades dos residentes e salvaguardar o imóvel.

 

Imagens e videoclipe de Silmara Feiber/2007

Para verificar a situação interna de um típico sobrado maranhense em estado de degradação, a turma seguiu para Rua Afonso, nº 46. Nesta edificação, foi permitida a investigação por parte dos alunos, através de simples prospecções nas paredes de diversos ambientes da construção. Houve casos em que foram encontradas até dez camadas de pinturas.

 

Imagens de Karla Nunes/2007

Finalizando as visitas práticas do dia, os alunos aventuraram-se pela galeria principal da Fonte do Ribeirão. Construída em 1976, ela tinha como objetivo primordial melhorar o saneamento da cidade, fornecendo água potável à população. Entretanto, com o passar do tempo, foram criadas pela imaginação lendas e mistérios a respeito da escura e úmida galeria.

 

Imagens de Larissa Menezes/2007

A última manhã da viagem de estudos foi dedicada a uma visita guiada à Oficina Escola de São Luís. Trata-se um centro de trabalho e formação em técnicas de restauro, criado em 2005 e hoje beneficia cerca de 80 jovens moradores dos bairros que fazem parte da área de preservação patrimonial. Hoje, os cursos oferecidos são de alvenaria, azulejaria, carpintaria e marcenaria. Os próprios alunos fazem parte da execução das obras da sede da Oficina Escola e apresentaram ao grupo do CECI seus avanços e intenções futuras.

 

Mestre artífice carpinteiro do Curso de Gestão de Restauro do CECI, Moisés Floriano de Arruda, ministrando uma instrução sobre tesouras de telhados aos alunos da Oficina Escola de São Luiz. Imagens de J. Tinoco/2007

A parada seguinte foi no imóvel conhecido como Morada Histórica, construção peculiar da cidade, com fachada eclética e espaços interiores ricamente decorados de azulejos franceses, ingleses e painéis bucólicos. A turma pôde observar também a mobília típica do século XIX e início do XX. A casa foi reformada pela Prefeitura em 2003 e funciona hoje como museu. No terraço deste agradável ambiente, a equipe realizou uma avaliação geral do curso, expondo suas críticas e opiniões sobre as aulas a distância, presenciais e viagem de estudos.

 

Imagens de J.Tinoco/2007

Por fim, os alunos foram conhecer o Núcleo de Azulejaria do Centro Odylo Costa Filho, onde puderam presenciar a confecção de peças de reposição de azulejos históricos e obter informações a respeito das técnicas e materiais utilizados no restauro e fabrico destes elementos, além de dados sobre a azulejaria presente na cidade de São Luís.

 

Imagens de J.Tinoco/2007

Com a certeza de um denso aprendizado in loco que esta viagem lhes permitiu, a turma se despediu da cidade de São Luís e das aulas presenciais da 7ª edição do Curso de Gestão e Prática de Obras de Conservação e Restauro do Património Cultural no fim da tarde do dia 30 de novembro.

Texto de Ana Cláudia Morais Fonseca

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