Ofício do Cantel ou Canteiro

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A palavra cantaria, no âmbito da arquitetura, tem sua etimologia originada do latim “canthus” com o significado de “aresta”. Há autores que remete o significado à época pré-romana quando designava "pedra grande", ou pedra aparelhada para formar o ângulo de uma construção.

Daí sua ampla utilização nos cunhais ou esquinas das edificações, arrematando o encontro de dois panos de paredes. Seja como for, cantaria refere-se às pedras “aparelhadas”, “lavradas” e “esquadrejadas” segundo as técnicas da estereotomia. A estereotomia refere-se ao estudo minucioso das formas das pedras, através da análise das possibilidades de corte e entalhe pela geometria da peça. Nesse estudo, é muito importante que o mestre tenha um bom conhecimento sobre desenho de perspectiva isonométrica.

Canteiro ou cantel é o oficial que corta, desbasta e aparelha as pedras para a construção que irão constituir a cantaria. O étimo de cantel pode ter origem numa corruptela do espanhol “el canto”, que também corresponde à pedra de canto. O termo cantel é utilizado apenas nos estados de Alagoas, Pernambuco e Paraíba, cuja presença do técnico José Ferrão Castelo Branco, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – 5aSR/IPHAN, influenciou seu emprego.

Foto: Anneliese Tiburtius. Edição: CECI/2007

 

Em Recife e em outras cidades coloniais brasileiras como Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto, os canteiros se organizavam em “Confrarias” sob a denominação geral de pedreiros. Seus conhecimentos eram transmitidos pelos Mestres aos Aprendizes. Tais associações eram assemelhadas aos grêmios europeus medievais de profissionais da construção, embora de caráter pouco rígido e mesclado de religiosidade, onde o ofício era “regulado” e “atestado” por juízes através de “cartas de ofício”. Também, possuíam um Santo protetor (São José) estampado em uma “bandeira”, representativa da Confraria. Esta bandeira era carregada pelos Mestres de Ofício em as procissões e outras atividades públicas.

Os canteiros realizavam uma gama de serviços que ia da confecção de simples pedras para assentamento em muros a elementos escultóricos fossem obras civis, religiosas ou militares.

 

Fig. 1 Detalhes da fachada da igreja do Convento de Santo Antônio no Recife (século. XVIII).
Fonte: Roberto Dantas, 2006.

Fig.2 Cunhal de um Baluarte do Forte do Brum (século. XVIII).
Fonte: Roberto Dantas, 2006.

Alguns componentes de cantaria, de tão constantes, tipificaria a arquitetura de um lugar como se deu com os “cachorros de pedra”, unicamente encontrados em Olinda e Recife!

 

Fig. 3 Cachorros de Pedra em Olinda. (século XVII).
Fonte: Curso de Arquitetura da UFPE, 2005.

Fig.4 Cachorros de Pedra, Pátio de São Pedro,
Recife (século XVIII). Fonte: Curso de Arquitetura da UFPE, 2005.

Cabe observar que contrário da Metrópole, onde eram comuns edificações inteiramente em cantaria, o seu uso no Brasil Colonial ficou restrito a componentes construtivos como cunhais, pilastras, colunas, molduras de portas e janelas, escadarias e obras decorativas em geral, sempre inseridas em uma alvenaria rebocada. As obras de cantaria expressavam valores de beleza, segurança, durabilidade e status justamente pelos recursos materiais e humanos envolvidos, demandando uma mão de obra muito especializada.

No Brasil a rocha utilizada na cantaria, como era de se esperar, variou de região para região, sendo comum em grande parte do nordeste tanto o arenito dos arrecifes quanto o calcário. Em Minas Gerais, foi corrente o uso da pedra sabão e no Rio de Janeiro, o granito. Tais rochas se diferenciavam pela suas propriedades físico-mecânicas e de “trabalhabilidade” e, conseqüentemente, pelo seu emprego e até pelas suas possibilidades plásticas.

Subvertendo as características originais da rocha e adotando uma tradição imemorial, foi igualmente comum o uso da cantaria pintada (faiscado), fazendo com que os tons cinzas e amarelados naturais recebessem colorações vivas diversas e manchas, imitando e fingindo os veios de certos mármores.

Na história da Arquitetura Colonial Brasileira se pode constatar o desaparecimento das obras em cantaria desde o final do século XVIII. A partir do século XIX, tanto os componentes exteriores quanto interiores serão paulatinamente substituídos pela alvenaria de tijolo com relevos moldados em argamassa de cal, gesso e areia.

 

Fig. 5 Cantaria pintada. arco da galeria do Convento de Santo Antônio no Recife, (Século XVIII).
Fonte: Anneliese Tiburtius.

Fig.6 Imitação de cantaria. Casario eclético recifense. (Início do século XX).
Fonte: Curso de Arquitetura da UFPE, 2005
.

Este fenômeno esteve associado aos fatores econômicos e sociais advindos: a) com a racionalização dos processos construtivos; b) com a extinção das antigas organizações de ofícios mecânicos (decretada pela Constituição de 1822); c) com a intensa imigração de “operários da construção” oriundos da Alemanha e da França, onde a Revolução Industrial já transformara a Arte da Construção.

Finalmente, é necessário dizer que as atividades conservação e restauro sobre a cantaria degradada tanto pelas intempéries quanto pela mão humana, apesar de todos os recursos da tecnologia contemporânea, prescinde hoje, mais do que nunca, de um cuidadoso resgate daqueles antigos modos de fazer de cada Ofício.

O mestre canteiro, responsável pela produção dos modelos reduzidos do acervo do CECI, é o escultor Hamilton Martins de Souza, formado na arte da cantaria desde 1986, quando participou da restauração da portada da Igreja do Monte (Olinda-PE) e especializado na Escola de Mestres de Ofícios em Veneza (Itália).

 

Fig. 7 Base de uma das colunas da Portada da Igreja do Monte, Olinda (século XVII).
Fonte: Roberto Dantas, 2005.

Base de uma das colunas da Portada da Igreja do Monte, Olinda. Cópia de restauro.
Fonte: Roberto Dantas, 2005.

Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador


Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador

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