Viagem de Estudos à Salvador e Cachoeira – BA

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A viagem de estudos da 5ª edição do Curso de Gestão e Prática de Obras de Conservação e Restauro do Patrimônio Cultural às cidades baianas de Cachoeira e Salvador foi um sucesso.

Foram três dias de visitas à sete canteiros de obras e projetos, acompanhados pelos engenheiros e arquitetos responsáveis, realizadas entre os dias 2, 3 e 4/set/2005.

 

A primeira visita foi às obras de adaptação do antigo Palacete Comendador Bernardo Martins Catharino, uma mansão residencial do início do século XX, tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC/BA. As obras visam à implantação do primeiro museu internacional a ser instalado no Brasil, Museu Rodin de Paris.

O museu, previsto para inaugurar em março/2006, irá abrigar 62 esculturas originais do artista francês cedidas por um período de três anos. O governo da Bahia já comprou quatro réplicas de esculturas em bronze, que ficarão expostas na área anexa, num novo bloco arquitetônico, no qual serão abrigadas as exposições temporárias de arte contemporânea de diversos artistas

Os alunos, acompanhados pelo prof. Jorge Eduardo Tinoco, foram recebidos pelo Diretor de Preservação do IPAC/BA, eng. Jorge Halla Guimarães, que foi assistido pelo sócio-gerente da Pentágono, Renato Machado Leal, pelo consultor de restauro de bens integrados, Orlando Ramos Filho e pelos engenheiros da Sertenge, Cláudia Nolasco e Bruno Menezes.

 

Palacete Com. Bernardo Martins Catharino, à Rua da Graça, 292 Salvador–BA com o projeto anexo ao fundo.

Jorge Halla apresentou as linhas gerais do projeto, caracterizando a urgência nos procedimentos de cadastro e prospecções haja vista as licitações realizadas no ano de 2003 que tinha como previsão para conclusão este ano de 2005.

 

Os alunos acompanharam as explicações do Jorge Halla sobre a implantação do anexo no terreno do palacete, considerando a cobertura vegetal que também faz parte do tombamento da edificação. A integração do anexo com o palacete foi obtida pela inserção de um prisma, vasado, com passarela aberta, em concreto armado aparente. Aliás, é o contraste do concreto armado com a argamassa raspada do palacete que dá o tom ao projeto dos arquitetos Marcelo Carvalho Ferraz e Francisco de Paiva Fanucci, do escritório paulista Brasil Arquitetura.

 

Na oportunidade, Orlando Ramos autografou para os alunos seu livro Restauro Artístico – Pequena História e Alguma Teoria da Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 2002.

A segunda visita foi às obras da Escola Oficina de Salvador, projeto do Centro Estudos da Arquitetura da Bahia da Faculdade de Arquitetura da UFBA que visa à formação de mão-de-obra para a restauração de edifícios e a construção civil.

Orlando ramos Filho autografando seu livro para os alunos do CECI

O arquiteto Antonio Carlos Barbosa, que junto com o arquiteto Luiz Carlos Botas Dourado, é um dos responsáveis pelo projeto junto à UFBA, apresentou a experiência do empreendimento aos alunos. Considerando que neste período a oficina encontra-se sem turmas, os alunos só tiveram a oportunidade de conhecer alguns aspectos dos restauros (recuperação das lages em concreto armado - tela deployer).

 


Em seguida (terceira visita), os alunos dirigiram-se para a Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha (nome herdado de "barroca" ou depressão, em referência ao sítio no qual se implanta). A arquiteta Eliana Sallenave (Lica), coordenadora do projeto, junto com a arquiteta residente Nadir Franco Lima, e com a gerente de Sítios Históricos da Fundação Gregório de Matos, arquiteta Stela Vaz, apresentaram o projeto de restauração da igreja.

 

Facahada da Igreja da Barroquinha

A arquiteta Lica apresentando o projeto do teatro

Aspecto da resconstituição da cabertura da nave em estrutura metálica. O forro será abobadado, e receberá réguas de madeira (acústica)

As ilhargas da nave, bem como as demais paredes da igreja não receberão mais os revestimentos das argamassas. A opção do projeto é deixar as alvenarias expostas com as instalações elétricas aparentes.

Parcialmente destruída por um incêndio em 1983, a Igreja da Barroquinha possui tradição histórica de quase três séculos. Após a tragédia, o espaço perdeu sua função religiosa e sediará o Coliseu das Artes – Espaço Cultural da Barroquinha. O novo uso será de teatro com a platéia na nave e coro, palco na capela mor, numa das laterais ficará o memorial igreja e noutro a bilheteria, sanitários, camarins. “Internamente a igreja não receberá revestimentos, pois será uma aula de arquitetura” disse Nadir. “O trecho que desabou na parte posterior não será reconstruído, será fechado com uma pele de vidro” informou Lica. Realmente, o projeto impressionou os alunos pelo arrojo da proposta.

A quarta visita foi ao Conjunto Carmelita de Salvador, onde estão sendo ultimadas as obras de restauração para a implantação do Hotel Convento do Carmo, que será operada pele rede Tropical de Hotéis. O arquiteto especialista em restauro, A. P. P. Callazans, explicou sobre a trajetória da transformação daquele cenóbio numa pousada nos anos 1970 conforme modelo de hospedagem tradicional na Europa: hotéis instalados em prédios históricos, como castelos e monastérios.

 

Terezinha Borges, restauradora de bens artísticos integrados e sócia-gerente da Acervos Studio Ltda, é a responsável pela restauração dos elementos artísticos integrados do forro da portaria, onde funcionou aantiga capela dos escravos do convento.

Ela informou aos alunos que as prospecções denunciaram a antiga pintura decorativa sob cinco camadas de repinturas. As técnicas de reintegração para recuperação das pinturas são à base de produtos sintéticos.

O convento da antiga pousado do Carmo encontrava-se em arruinamento em 2003 quando do início dos trabalhos atuais de restauração. Muitas traves (barroteamento) e tábuas de soalhos foram substituídas por novas de dimensões semelhantes, inclusive com tratamento estético de falquejamento para dar o aspecto de antigo ao madeiramento, informou o eng. Calazans

 


Atualmente, os serviços encontram-se em fase de acabamento. O canteiro das obras impressionou pelo tamanho, inclusive proporcional ao volume de recursos investidos - da ordem de R$ 10 milhões. Os principais pontos anotados foram: a colocação de uma sub-cobertura no telhado com a manta Tyvek da DuPont para evitar inflitrações por goteiras; a colocação de manta de fibra de vidro sobre as calha de cobre para reforço na seguraça contra vazamentos futuros; a interposição, em alguns vãos, de esquadrias de pcv (Claris da Tigre) para acústica dos apartamentos e auditório.
Toda a argamassa recebeu um tratamento de ondulação, característico do estuque à base de cal e areia, para dar um aspecto estético de antigo aos rebocos. Segundo Calazans, houve a adição de cimento para melhor rendimento e trabalhabilidade dos revestimentos.

 

As Ordens 1ª e 3ª de São Francisco fizeram parte do roteiro de visitação (quinta visita). A arquiteta da UFBA, Griselda Klüppel, responsável pela elaboração do Projeto São Francisco (MinC/Pronac/Eletrobrás), apresentou a metodologia de trabalho e as patologias identificadas.

A situação do claustro do convento é alarmante em razão das intervenções de restauro realizadas na década de 1990. Os erros cometidos pela ignorância das técnicas luso-brasileiras de construção dos conventos franciscanos acarretou sérios problemas para a estabilidade das colunas do claustro da Ordem Primeira.

O desafio da equipe doe projeto é encontrar soluções técnicas que visem restituir a estabilidade do conjunto sem prejuízo dos valores de autenticidade do claustro. projeto em três etapas: cadastro, diagnóstico e projeto. Segundo Griselda, a engenheira civil Sílvia Puccioni do IPHAN está ultimando o a proposta técnica para a recuperação dos danos.

 

As sobre-tensões nas colunas, somadas a clivagem do calcário antigo (stress) e a úmida natural do ambiente, provocaram um processo de arruinamento acelerado das colunas.

Na foto, aparecem pedaços recentes de perda de material que, num processo diário de desprendimentos, torna a situação da edificação sob regime de urgência, urgentíssima, de intervenção!

 

Outros danos causados no Conjunto Franciscano de slavador pela ignorância de procedimentos técnicos e de critérios foram identificados, como o caso (absurdo) do rompimento da soleira de pedra da porta de acesso à torre sineira para passagem das eletrocalhas do sistema de Luz & Som, realizado pelo consórcio Eletrobrás e Fundação Roberto Marinho

A Ordem Terceira de São Francisco tem sua fachada em pedra de cantaria entalhada em estilo barroco-plateresco. É famosa por possuir segundo maior acervo de azulejaria portuguesa do mundo e por abrigar em seu claustro painéis de azulejos portugueses que retratam paisagens de Lisboa que desapareceram com o terremoto de 1755.

 

A foto direita acima, mostra a forte presença de micro-organismos na base dos paínies provocados pela úmida ascendente, potencializada pela adição de produto de base celulose da recuperação das chacotas e/ou argamassas.

Entre os anos de 2000/01 todos os 39 paíneis foram restaurados, através de um projeto com a chancela da Comissão Bilateral (Brasil/Portugal) para as comemorações dos 500 anos da Viagem de Cabral, em associação com o MinC/IPHAN, IPAC/BA e a FRESS (Fundação Ricardo do Espírito Santo e Silva). A restauradora de bens integrados Zeila Machado, que participou dos trabalhos de restauração dos painéis, apresentou aos alunos as patologias dos azulejos em função da aplicação de técnicas inadequadas de intervençãos.

 

Zeila e Griselda mostram aos alunos o desprendimento das reintegrações do esmalte dos azulejos ao simples toque com as mãos. Segundo Zeila, essa patologia é em razão da falta de uma boa ancoragem da argamassa restauradora ao suporte, por questão de qualidade.

A situação de estabilidade no Conjunto Franciscano de Salvador é tão grave que toda a área do claustro da Ordem Primeira encontra-se interditada por risco iminente de desabamento, conforme indicação em faixa de advertência.

A sexta visita da viagem de estudos foi através de um delicioso passeio de escuna pelo Rio Paraguaçu a partir da cidade de Cachoeira. Após dois dias de visitas intensas em Salvador, os alunos madrugaram (4h:30m) no domingo para pegar a maré em condições de descer à Baía do Iguape para conhecer o Conjunto Franciscano do Paraguaçu.

 

Descer o Paraguaçu de escuna é uma atividade imperdível do Curso de Gestão de Restauro do CECI. A cidade de Cachoeira guarda um acervo de patrimônio construído dos mais relevantes para a arquitetura da Bahia. Também, a micro-região onde a cidade está inserida possuí edificações relevantes como Belém e Santiago do Iguape. A Região foi desbravada já a partir do século XVI e, em torno de um engenho de açucar, nasceu a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto - Cachoeira.

 

A

C

B

D

Ao longo do trajeto, pela margem esquerda à jusante do rio, expressivas edificações antigas vão sendo descortinadas pelo verde exuberante da Mata Atlântica. A bela sede do Engenho Vitória (A) (1812) encontra-se abandonada à mercê das injurias do clima tropical. Entretanto, a manutenção do telhado tem sido uma providencia indispensável do seu proprietário para a preservação da edificação. Mais abaixo, e correndo para a maré permitir a escuna alcançar a Baía do Iguape, a Capela de N. Sra.da Penha (B) antigo Engenho Velho do Paraguaçu - século XVII, descortina-se balizada por duas majestosas palmeiras imperiais, numa demonstração impar da riqueza da região. Passando pelo Convento de São Francisco do Paraguaçu (C), e agora já no município do Maragogipe, vimos o Forte de Santa Cruz (D) pela margem direita à jusante do rio, também conhecido como Forte da Barra do Paraguaçu ou do Alemão, nas terras do outrora Engenho Novo (atual Fazenda Salmina), que se contrapunha ao Fortim da Conceição na margem oposta.

As obras de restauração, ou melhor, de reconstrução do antigo Convento Franciscano do Paraguaçu encontram-se paralisadas desde outubro de 2004, segundo o zelador daquele monumento. A turma da 4a edição do Curso de Gestão de Restauro teve a oportunidade em maio/2004 visitar o canteiro de obras sob a responsabilidade do arquiteto Francisco Santana (Chico), da 7a.SR/IPHAN.

Desde meados de 1980, segundo painéis informativos em exposição no convento, a 7a.SR/IPHAN vem realizando obras de conservação e restauro naquele conjunto. Entretanto, pela observação das fotos contidas nos painéis pode-se assegurar que se trata mais de reconstrução das ruínas que propriamente ações de conservação e restauro. As intervenções são marcantes pela inserção de técnicas construtivas diferentes das antigas, como por exemplo, a utlização de argamassas à base de cimento sobre chapisco e de vergas de concreto armado no lugar dos antigos tijolos de barro cozido artesanais nos arcos de escarcel dos vãos.

 

Vista do claustro com parte dos revestimentos reconstituídos

Alunos observando a reconstituição do arco de escarcel (verga) do vão de uma janela (refeitório) em concreto armado.

Foto tirada em maio/2004 quando da "reconstituição" de um painel de azulejos na antiga sacristia. Foi utilizada a uma técnica exótica muito em utilizada na década de 1960 pelo IPHAN, ou seja, reunir inúmeros pedaços de azulejos não identificados num painel.

Aspecto atual do painel. As "manchas" acima são registros (janelas) para mostrar em negativo os registros nas argamassas das chacotas ou biscoitos.

A sétima e última visita foi ao conjunto carmelitanode Cachoeira, constituído pela Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo e Capela, Cemitério e Casa de Oração da Ordem Terceira. Nessa visita, os alunos e o Prof. Jorge E. Tinoco tiveram a satisfação de serem orientados pela ex-aluna do CECI (4a. Edição do Gestão de Restauro) e do CECRE (1), arquiteta Itana Miranda de Lima. O volume de obras impressiona pela generalização de abertura de frentes de trabalho. Praticamente, todo o conjunto, exceto o convento da Ordem Primeira, onde funciona um hotel-pousada, está sob intervenções mais ou menos profundas.

 

As obras fazem parte do Programa Monumenta/BID do MinC e totalizam recurso da ordem de, aproxidamente, R$ 3 milhões.

Nave da igreja da Ordem Primeira. Em maio/2004, antes das obras, o forro que aparece no canto esquerdo da foto estava desmontado, salvo do lixo por Chico do IPHAN anos atrás (arq. Francisco Santana já mencionado) .

Itana fez um relato das intervenções na área do claustro da Ordem Terceira, informando sobre os "sacrifícios" de alguns itens das técnicas construtivas tradicionais em razão da necessidade de um contraponto prático ao romantismo de Ruskin.

Aspecto das chapas de fibra de vidro em venezianas colocadas como sub-cobertura nos telhados do conjunto carmilitano. Na oportunidade foram feitos questionamentos sobre a ignifugação desse material em caso de sinistro por incêndio

(1) Itana teve a oportunidade de vivênciar como aluna do CECI e do CECRE duas filosofias um tanto distintas dessas instituições de capacitação de profissionais com relação ao emprego de técnicas e materiais construtivos nas intervenções de conservação e restauro.

 

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