Ofício do Carpinteiro

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Imagem: Estrutura de uma torre sineira
Edição de fotos: CECI/2007

Ofício do carpinteiro refere-se ao profissional que lavra e aparelha a madeira para as construções.

É um dos mais antigos ofícios do homem. Ele ocupa-se desde a construção do trançado que permite a “taipa de sebe” ou de “sopapo” até as impostas e complexas estruturas das cobertas. Era conhecido antigamente como carapina ou carpina. Antigamente, a carpintaria dividia-se em quatro áreas principais de atuação: naval, militar, civil e industrial.

Pode-se dizer que a diferença entre o carpinteiro e o marceneiro está no processo de trabalhar a madeira. O primeiro beneficia a madeira, cortando-a e lavrando-a em peças que serão utilizadas principalmente nas coberturas, soalhos e forros. Sua jornada de trabalho realiza-se num canteiro de obras ou serviços. O marceneiro passa a maior parte de seu tempo numa bancada, cortando, encaixando e entalhando peças e objetos. Seu trabalho é mais delicado e, normalmente, requer muita paciência.

A qualidade e a abundância das madeiras brasileiras tornaram-se proverbial desde os primeiros contatos com o Novo Mundo. Algumas, comparadas com madeiras européias, eram consideradas “incorruptíveis”, outras, possuíam tanta dureza que eram comumente comparadas ao ferro.

A importância da madeira na arte da construção desde cedo resultou na separação de dois tipos de ofícios: os carpinteiros e os marceneiros. Ao primeiro caberia a execução de componentes estruturais (como vigas, esteios, tesouras, escadas, assoalhos e etc.). Ao segundo, a produção de objetos utilitários e artísticos (portas, janelas, armários, cômodas, cadeiras, retábulos e etc.).

 

Fig. 1 Porta em almofadas do Mosteiro de S. Bento em Olinda - PE (século XVI). Fonte: CECI, 2003.

Fig. 2 Sanefa da Igreja de Nossa Senhora das Correntes, Penedo - AL (século XVIII). Fonte: J. Tinoco - CECI, 2004.

Esta divisão de trabalho e de objetivos também influiria na utilização dos tipos de madeiras. Assim, aos carpinteiros interessava as madeiras mais resistentes aos esforços mecânicos, à flexão, por exemplo, e à durabilidade as intempéries. Aos marceneiros, por outro lado, interessavam as madeiras macias, de belas e variadas colorações e ainda capazes de serem torneadas ou esculpidas com facilidade.

No Recife(1), (e certamente nos demais importantes centros urbanos coloniais brasileiros) existiu do final século XVII ao início do XIX, a Confraria e Irmandade de São José, que congregava carpinteiros, marceneiros, além de “pedreiros” e “tanoeiros”. Vale observar que os carpinteiros eram a “cabeça” dessa organização. Tal confraria fazia parte de instituições análogas européias desde o período medieval e tinha como objetivo a proteção de seu filiado pela ajuda mútua e pela organização do próprio ofício, regulando preços e a qualidade dos serviços. Dela, pelo menos a partir de um de seus “regimentos” elaborados nas primeiras décadas do século XVIII, poderiam fazer parte homens de cor, contanto que soubessem ler.

De acordo com César de Rainville(2), havia ainda outras distinções:

A marcenaria constitui uma das partes principais da construção de uma casa; consiste na arte de ajuntar madeiras de diversas qualidades, para com elas formar qualquer objeto necessário para o acabamento interior de uma casa, ou para a sua decoração. Diferencia-se da arte do carpinteiro a qual pertencem unicamente os trabalhos que não se usa cola.

A inexistência de cola nas obras dos carpinteiros estava associada à grandeza dos esforços mecânicos a que eram submetidas suas obras. Para a união das peças que compunham uma tesoura, por exemplo, estes profissionais utilizavam engenhosos encaixes chamados “engradamentos” (ou, para usar termos provenientes do francês, “ensambladuras”(3), “sambladuras” ). Ainda, evitavam, na medida do possível, o uso de pregos que, ao serem introduzidos na madeira, pela oxidação, produziam rachaduras e tornava frágeis as estruturas.

 

Fig. 3 Balcão muxarabis em Olinda – PE (século XVIII) . Fonte: Roberto Dantas, 2004.

Fig. 4 Caibramento do Convento de São Francisco, São Cristóvão - SE (Século XVIII). Fonte: Anneliese Tiburtius -CECI, 2004.

O conhecimento detalhado destes encaixes resultou numa verdadeira arte cujos segredos seriam cuidadosamente transmitidos aos aprendizes na prática das “tendas” ou “oficinas”.

Assim, entre os ofícios da construção do Período Colonial, carpinteiros e marceneiros certamente se destacaram como os mais importantes pelo nível de solicitação. Isto se deveu ao fato de a madeira, além de seu uso convencional, como o indicado acima, ainda fazer parte de vários sistemas construtivos chamados de “mistos”, caracterizados pelo uso simultâneo do barro e da madeira ou do tijolo e da madeira. O uso intensivo da madeira é uma das características mais fortes, por exemplo, da arquitetura paulista e mineira do século XVIII. Justamente foram os sistemas “mistos” que, no Brasil, persistiram, atravessando incólumes vários períodos históricos.

 

Fig. 5 Estrutura da coberta com tirantes travados. Moita do engenho Poço Comprido, Vicência, Pernambuco. Fonte: Roberto Dantas, 2005.

Fig. 6 Escada helicoidal de madeira, típica dos sobrados do final do século XIX recifenses.Fonte: Roberto Dantas, 2004.

Finalmente, as madeiras, e em conseqüência os mestres carpinteiros e marceneiros, tornaram-se imprescindíveis não apenas para as habitações, fossem elas rurais ou urbanas, mas, também para a principal fábrica colonial, os engenhos de açúcar. Moendas, rodas de água, cabestrantes, caixas de açúcar e etc., tudo era feito de madeira e necessitava de manutenção constante.


Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco, responsável técnico
Prof. Dr. Roberto Antônio Dantas de Araújo, curador

(1) A “Confraria e Irmandade de São José do Ribamar no Recife” foi objeto de estudo de uma tese de doutorado. Ver ARAÚJO, Roberto Antônio Dantas de. O Ofício da Construção na Cidade Colonial - Organização, Materiais e Técnicas - O caso pernambucano. USP/FAU, São Paulo, 2002.
(2) RAINVILLE, César. O Vinhola Brazileiro - Novo Manual Prático do Engenheiro, Architecto, Pedreiro, Carpinteiro, Marceneiro e Serralheiro. Rio de Janeiro, 1880. Pág. 377.
(3) No Dicionário Houaiss o verbo “ensamblar”, significando “juntar peças de madeira”, teria sido introduzido no português por volta de 1844. Etimologicamente viria do espanhol. “ensamblar” (1570) e este do francês antigo “ensembler”.

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